Body Image: A Crise Contemporânea
Desde
cedo que penso sobre o meu corpo, desde cedo que quando olhava para as opções
de brinquedos, desenhos animados, etc, reparava que os heróis eram magros,
altos, ou musculados, enquanto os gordos assumiam a posição de alívio cómico ou
da personagem insegura e triste.
É
olhar para a Barbie e para o Ken, ou para o Action Man, brinquedos indicados
para crianças maiores de 4, brinquedos que apresentam uma imagem física
considerada “perfeita”. Ela é alta, magra, mas com rabo e seios proeminentes,
loira e de olhos claros. Eles são altos, musculados e com os cabelos cuidados.
Estes brinquedos inanimados começam a abrir o caminho para os desenhos animados
que posteriormente entrarão pela televisão, com os seus protagonistas musculados
e vitoriosos - um exemplo a seguir -enquanto os outros, os gordos, ficam em
segundo plano, servindo sempre de utensílio para um momento engraçado.
“The children liked the thinner, “normal” figures best,
describing them with positive attributes such as friendly, kind, happy, and
polite. The overweight figures, by contrast, were seen most negatively and were
described as lazy, lying, and cheating. In another study, children aged ten and
eleven were shown drawings of other children and were asked “wich girl/boy do
you like the most?” they consistently ranked drawings of obese children the
lowest, preferring drawings of a child with missing limbs or a child ina a
wheelchair “(Nichter,
36)
Como
é de fácil dedução, as crianças não desenvolvem estas noções do que é bom/mau,
feio/bonito, entre outros princípios/ideias/conceitos, por si sós, elas são o
resultado da influência do meio. Enquanto nós cada vez mais vamos tendo
material teórico e artístico acerca de questões raciais e étnicas, o tema do
corpo, da Body Image, conceito que
tem sido utilizado para descrever esta temática, tem sido menos trabalhado, só
mais recentemente tem ganho atenção. Muito graças também à maior noção que vamos
tendo acerca da influência dos media e das atitudes de cada um de nós que está
inserido na sociedade.
Paul Schilder (1886-1940), defende
no seu livro, The Image and Appearance of
the Human Body (1935), que a Body
Image não é só uma construção cognitiva, mas também o resultado das
atitudes e interacções com os outros (cf. Grogan, 1). É
então cada vez mais importante pensar acerca deste assunto, mas um pensamento
que não seja só sociológico ou então psicanalista. É importante pensar no papel
que cada um desempenha na sociedade de todos os dias, o que absorvemos, o que
observamos e como as nossas acções se repercutem.
A verdade é que este problema, tal
como diz Mimi Nichter, esta insatisfação com o corpo, começa normalmente nas
fases iniciais da adolescência, onde esta é sentida de forma mais forte e atravessa
todos os grupos sociais. Tal como observa, esta insatisfação não tende a
desaparecer quando uma pessoa envelhece:
“Yes, me and
the rest of the women in my community! We’re still concerned with our weight…
You know, it doesn’t stop when you get older.” (Nichter, ix)
“I found that
desire for thinness crosscut all groups” (Nichter, 63)
“Fat talk is
particularly prevalent during adolescence” (Nichter, 67)
Tal como Sarah Grogan
(1959) refere, muito do trabalho que até hoje se tem desenvolvido acerca da Body Image tem recaído sobre a mulheres,
sobre como estas noções acerca do corpo têm afectado a construção das suas
personalidades e da sua relação com a sociedade. Mas a verdade é que esta
temática também afecta os homens, incidindo também na construção das suas
personalidades e na relação com a sociedade.
Tal como é exposto na Encyclopedia of Boby Image and Human Appearance, no artigo Body Image and Gender Roles,
“Men are not
immune to body image ideal portrayals either. […] It only takes a brief look at
a magazine or TV commercials to identify the ideal male body. […] images of
male athletes and models with enormous muscles project the ideal that the most
attractive man is a muscular one,” (Murnen and Don, 129)
A
influência do mundo exterior tem vindo a projectar nos jovens de ambos os
géneros a ideia do que é o corpo ideal. Ideias estas que se baseiam numa
construção do que é a projecção da masculinidade no caso do género masculino e
de feminilidade no género feminino:
“The desire to increase muscles has been shown to be a
stronger predictor of body dissatisfaction and body change strategies compared
to desire to lose weight. […] The male body is believed to be a location of
many aspects of the masculine ideal, such as dominance, agression, and the
aforementioned power and control.” (Murnen
and Don, 129)
Enquanto
nas mulheres é incutida a ideia de que devem perder peso e alcançar uma figura
esguia, mas que, ao mesmo tempo, sejam imprescindíveis curvas apelativas ao
olhar masculino, no caso dos homens é diferente, o objectivo desvia-se da ideia
de perda de peso e foca-se na criação de massa muscular projectando assim uma
ideia de hiper-masculinidade:
“Both women
and men are subjected to unrealistic body image ideals that exaggerate
characteristics associated with femininity and masculinity.” (Murnen
and Don, 133)
Durante o processo de criação deste
projecto cruzei-me com um especial de stand-up
comedy, no Netflix, um especial de Hannah Gadsby, uma comediante de 40
anos, nascida na Tasmânia, lésbica, gorda e butch[1]. É ao assistir a este
especial que me deparo com aquilo que viria a ser um dos motes para a criação
deste projecto:
“When you
soak a child in shame, they cannot develop the neurological pathways that carry
thought… you know, carry thoughts of self-worth. They can’t do that.
Self-hatred is only ever a seed planted from outside in. But when you do that
to a child, it becomes a weed so thick, and it grows so fast, the child doesn’t
know any different. It becomes… As natural as gravity.”
(Gadsby)
Como é que se reconstrói algo que já
está tão consolidado que é encarado como algo natural? Trata-se agora de uma
aprendizagem de desconstrução, uma reestruturação daquilo que durante anos foi sendo
o entendimento que a pessoa tinha de si mesma.
É também o entendimento que o ser
humano vive numa sociedade que funciona enquanto estrutura, estrutura essa que
determina o papel de cada um e como este se insere nessa mesma sociedade.
O excesso de peso é cada vez mais
uma marca da camada infanto-juvenil, é referido repetidamente nos meios de
comunicação social o aumento da taxa de crianças e jovens adultos que sofrem de
excesso de peso ou obesidade. É, portanto, natural que cada vez mais seja
necessário olhar para a forma que a sociedade se relaciona com as pessoas com
excesso de peso e de como essa relação influencia a “criação” da personalidade
da criança, que será jovem e mais tarde chegará a adulto. De que forma estas
relações ao longo da vida são definidoras de traços de personalidade.
Michael Hobbes, no seu artigo para o
Huffington Post, escreve acerca do
excesso de peso:
“Which brings
us to one of the largest gaps between science and practice in our own time.
Years from now, we will look back in horror at the counterproductive ways we
addressed the obesity epidemic and the barbaric ways we treated fat people—long
after we knew there was a better path.” (Hobbes in Huffington Post, 19 Set. 2018)
É necessário reflectir sobre a forma
como as pessoas com excesso de peso são tratadas, é preciso olhar para a forma
como a sociedade se relaciona com as pessoas gordas. Hobbes explora não só as
relações sociais, mas também as relações e a forma como a comunidade médica
lida com pessoas com excesso de peso. É preciso compreender a influência de
todos os meios para se construir um novo caminho.
A sensação de impotência é uma marca
de quem olha para si e não consegue gostar do que vê, que olha para si e só vê
o que a prende, que não lhe permite avançar:
“A medical
technician I’ll call Sam [...] said that one glimpse of himself in a mirror can
destroy his mood for days. ‘I have this sense I’m fat and I shouldn’t be,’ he
says. ‘It feels like the worst kind of weakness.’” (Hobbes in Huffington Post, 19
Set. 2018)
É
importante entender o conceito abrangente de saúde, o que representa ou não ser
saudável. É preciso entender que o individuo não é exclusivamente um número
numa estastistica, é uma pessoa com as suas especificidades e por isso deve
definir-se um acompanhamento individualizado e não generalizado.
Fazer dieta tornou-se, não apenas
uma exigência médica, mas uma prática social exigida pela sociedade dos dias de
hoje. As consultas de nutrição cresceram com a chegada do século XXI e nada
prevê que comecem a diminuir. Criou-se a ideia de que fazer dieta é a solução,
mesmo os estudos provando que a grande maioria das dietas não resulta e nos
casos em que resulta, passado algum tempo, a pessoa volta a recuperar o peso. A dieta virou crença.
“The terrible
irony is that for 60 years, we’ve approached the obesity epidemic like a fad
dieter: If we just try the exact same thing one more time, we'll get a
different result.” (Hobbes in Huffington Post, 19 Set. 2018)
Há uma necessidade de se alterar as perspectivas e transformar os
conceitos. O ser humano não pode querer continuar a encarar as situações da
mesma forma e esperar novos resultados.
Referências:
Encyclopedia of body
image and human appearance. Ed. Thomas Cash.
Estados Unidos da América: Elsevier/Academic Press, 2012.
Gadsby, Hannah. Hannah
Gadsby: Nanette. 2018. Netflix, https://www.netflix.com/watch/80233611?
Grogan, Sarah. Body Image:
Understanding body dissatisfaction in men, women and children. New York: Routledge, 2001.
Hobbes, Michael. “Everything You Know About
Obesity Is Wrong.”. Huffington Post. 19 Set. 2018.
https://highline.huffingtonpost.com/articles/en/everything-you-know-about-obesity-is-wrong.
Accessed 2 Out. 2018
Nichter, Mimi. Fat Talk: What
girls and their parents say about dieting. Cambridge,
Massachusetts: Harvard University Press, 2000.
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